Read the interview in english here
No dia 2 de novembro, sábado (16h), a Subterrânea recebe a performance you are and that is, da artista holandesa Ieke Trinks. O evento faz parte da tour que a artista irá percorrer pelo Brasil, que inclui diferentes cidades, como a capital paranaense para a Bienal Internacional de Curitiba. Nascida em Rotterdam, na Holanda, Ieke desenvolve suas performances através de objetos e ações cotidianas como forma de questionar a intersecção entre performance e vida rotineira. De simples gestos, situações absurdas podem ser originadas. O que acontece não nos apegamos aos nomes e às funções estabelecidas para os objetos? Esta e outras indagações fazem parte das motivações artísticas de Ieke. Na entrevista abaixo, a artista comenta sua escolha pelo Brasil para a tour, a experiência na Galeria Ecarta, em 2012, e o início de seu envolvimento com a performance.
Como você descreveria a performance que vai acontecer em Porto Alegre?
A performance é uma exposição de objetos pessoais de cidadãos de Porto Alegre. Durante a performance , o público é convidado a entrar na exposição e acompanhar uma visita guiada. Durante a apresentação, aqueles que trouxeram objetos estão indiretamente envolvidos. Algumas questões são levantadas, por exemplo: “o que o objeto fala sobre o dono? ” e ” O que a combinação de dois objetos diferentes fala sobre esta relação?”. Durante o desenvolvimento da exposição, eu penso sobre os diferentes elementos que os objetos têm, como função, forma , material, valor emocional, etc. A performance possibilita muitas maneiras de desenvolvimento e, ciente disso, eu procuro diferentes modos de aproximação, além da familiar abordagem com o público. Neste trabalho, eu uso a forma de uma exposição, como acontece em um espaço da galeria.
É um trabalho em andamento ou é a primeira vez que você está fazendo essa performance específica? Como esta ideia foi construída?
De modo geral, o meu trabalho está em processo o tempo todo, um trabalho vem do outro. Existem algumas ideias essenciais nas quais o meu trabalho é desenvolvido. Elas consistem em pensamentos sobre o uso de objetos em nossas vidas diárias, por exemplo, “como o uso e dependência de objetos moldam e influenciam nossas vidas?” Outro elemento importante no meu trabalho é a linguagem. A nomeação e categorização das coisas ( objetos / materiais ) que rodeiam nossas vidas diárias . ” O que acontece se não nos apegamos aos nomes e às funções estabelecidas para os objetos? ”
Como surgiu a ideia de vir ao Brasil e realizar aqui a performance? O que fez você se decidir pelo Brasil para esta turnê?
A ideia de realizar esta turnê me pareceu sensata quando fui convidada para uma apresentação nesta Bienal Internacional de Curitiba. Existem três pontos que me fazem optar por este deslocamento: um é para me desafiar, indo para lugares diferentes. Isso me ajuda a desenvolver ideias e trabalhos. Outro ponto é conhecer novas pessoas e descobrir outros trabalhos, o que é muito bom para trocas e colaborações futuras. E o terceiro ponto é que o Brasil é um país muito grande e acredito que o sul é muito diferente em comparação com o Norte. Mesmo vivendo em um país muito pequeno, a Holanda, gosto de experimentar e viver as diferenças com os meus próprios olhos; eu quero conhecer as pessoas e ter uma ideia de suas vidas. A arte performática é muito ligada a viagens e apresentações de trabalhos em contextos diferentes.
Ainda não é certo se vou fazer toda a turnê (Porto Alegre , Curitiba , São Paulo, Belo Horizonte, Natal, Belém). Com certeza eu vou para a Bienal Internacional de Curitiba, para Perform 4, em São Paulo, e para Natal, com o Coletivo ES3. Para as performances que estou planejando em outras cidades, vou escolher diferentes abordagens – algumas vão ser participativas; em outros vou convidar uma pessoa para colaborar comigo, ou eu vou pedir para outra pessoa executar a obra. Algumas performances acontecerão no espaço público, como a da Bienal de Curitiba e outros em contraste com o espaço público e uma galeria. Em cada trabalho que eu estou ciente da localização e situação, e uso essas possibilidades no desenvolvimento de cada projeto.
Você veio a Porto Alegre uma vez, para uma performance na Galeria Ecarta. Como foi a sua primeira experiência aqui? Os aspectos culturais da cidade e do público interferem no seu trabalho, uma vez que você constrói a sua ideia em torno da vida cotidiana e objetos da rotina?
Esta vez, na Galeria Ecarta, foi a minha primeira vez no Brasil, mas eu fiquei pouco tempo. A performance aconteceu nos dias em que eu recém havia chegado da Holanda, então não tive muito tempo para preparar um trabalho conectado com Porto Alegre. Naquele momento, não era essencial, porque o meu encontro com Porto Alegre se daria através do conteúdo da bolsa de uma garota que estivesse presente na performance. Através dos objetos dela, eu pude criar a identidade de uma pessoa. A reação do púbico também estava bem conectada com a performance, pois pude ver participação quando respondiam minhas perguntas, etc. Fazer essa performance, “A thing after another”, foi muito interessante para mim, também em relação à apropriação do espaço da galeria, do chão.
Registro de ‘a thing after another’, 2012, Galeria Ecarta, Porto Alegre, Brasil. Foto: Igor Sperotto.
Quando você começou a “apontar” para a performance durante a sua formação como artista ? Foi uma evolução natural ou você teve algum “ponto de virada”?
Em 2006, eu decidi fazer um mestrado em artes plásticas, pois senti que precisava de uma mudança no meu trabalho. Nesse período, eu estava fazendo fotografia e vídeo. Durante o mestrado, eu descobri que precisava sair deste quadro que há no vídeo e na foto . Eu também estava procurando uma maneira diferente de expressão e precisava de uma conexão direta entre artista e público, sem a obra de arte no meio. Nesse momento, senti que o mundo estava cheio de objetos e que eu não precisava adicionar novos objetos, mas sim usar o que estava lá. Criar momentos, momentos efêmeros, é muito valioso para mim. Momentos que não podem ser completamente controlado apenas pelo artista, mas que também são influenciados pelo público participante e pelas condições do espaço. Durante minha formação educacional, eu ainda não tinha muita consciência de ser um artista performer, e eu ainda não me considero isso – eu sou uma artista visual que, na maior parte do tempo, está envolvida com a arte ao vivo. Depois que terminei o mestrado, fiquei sabendo mais sobre a cena artística da performance, e então passei a me concentrar mais nesse tipo de expressão. .
Quando você começou a incorporar pertences de outras pessoas em sua performance?
Eu acho que depois de ler Allan Kaprow, com ‘Ensaios sobre a indefinição de Arte e Vida’, eu passei a incorporar mais a vida cotidiana na arte. Ao mesmo tempo, questionamentos sobre autoria e conexão entre arte e vida cotidiana me fizeram usar objetos familiares que todos nós usamos, objetos que mostram nosso mundo globalizado. Estou usando esses materiais porque eu também acredito sinceramente que a prática da arte não precisa de tanto; grandes ideias podem existir nas simples coisas reconhecíveis que nos rodeiam diariamente. Esta é também uma razão para usar pertences de outras pessoas. Neste caso, tenho menos controle sobre a escolha de materiais e também é uma maneira de convidar outras pessoas para participar do trabalho.









